Bombeamento a seco garante concretagem produtiva a 220 metros

Por Rodrigo Conceição Santos – 07.08.2018 – 

Obra em Balneário do Camboriú inspirou a adequação de um sistema capaz de levar os componentes secos do concreto ao pico da obra, onde um misturador realiza a adição de água e garante a qualidade da mistura.

A construção de um dos edifícios mais altos do Brasil, o Infinity Coast, de 226 metros, deve incrementar a fama da apelidada “Dubai Brasileira”. Em Balneário do Camboriú (SC), essa é uma das duas grandes obras em execução pela FG-Empreemdimentos, uma incorporadora e construtora de edifícios verticais que briga arduamente para construir os maiores arranha-céus do país. Ocorre que, quanto mais alta a obra, mais difícil é fazer os materiais chegaram ao seu topo. E a máxima se multiplica quando se fala de concreto, pois há uma série de danos à qualidade que o processo de transporte pode causar ao segregar os componentes básicos – areia, cimento e agregado – durante o trajeto. Mas como para todo problema existe a engenharia, a obra do Infinity Coast foi responsável pela adequação de um sistema inédito de bombeamento para concretagem produtiva.

Em plena execução, o concreto já foi aplicado há mais de 200 metros no empreendimento. A Votorantim Cimentos, responsável pela tecnologia que vamos explicar, garante que isso está ocorrendo sem que haja perda das propriedades de traço definidas para o projeto. E não há uso de grandes bombas-lança com braço em Z, cinco seções ou nada do tipo. Nesse caso, a solução é um sistema de bombeamento a seco, no qual a areia, o agregado e o cimento são transportados até o topo e só então misturados com água e aplicados em forma da argamassa.

Vamos explicar: a FG-Empreendimentos, incorporadora e construtora do Infinity Coast, estimulou a Votorantim Cimentos como fornecedora de sistemas de concretagem a criar uma solução capaz de levar concreto até o topo da obra de forma qualitativa e rápida, para atender ao fluxo operacional da construção.

Ininity Coast. Crédito: Aline Fernandes.

Após alguns estudos, como conta Charles Moreira Barroso, consultor de desenvolvimento técnico de mercado da Votorantim Cimentos, chegou-se à formatação de utilizar um silo de armazenamento de material seco no andar térreo, um sistema de bombeamento a ar comprimido com compressão e descompressão adequadas e um misturador especial no pico da obra.

“O silo comporta até 24 toneladas de material e ocupa apenas 9 m² no canteiro de obras. Conectado a ele, o sistema de bombeamento é responsável por levar o produto ainda seco para qualquer parte da edificação, seja transportando vertical ou horizontalmente. Já o misturador, com pás misturadoras ideais para garantir eficiência na mistura, fica no andar de utilização do concreto e adiciona a quantidade de água necessária à argamassa, a misturando conforme especificação do traço”, detalha Barroso. Ele salienta que a aplicação do concreto pode ser manual ou projetada, algo que reduz em até 30% o tempo gasto no processo.

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O sistema, denominado Matrix, foi desenvolvido pela equipe de engenharia a qual Barroso integra com a utilização de equipamentos já disponíveis no parque da construtora. “Não há no mercado brasileiro equipamentos que atinjam altura de bombeamento acima de 220 metros garantindo os padrões de qualidade e eficiência na aplicação do concreto”, afirma.

Os equipamentos disponíveis, avalia ele, interferem na qualidade da mistura de modo geral, pois tratam o projeto em condição inadequada, algo que os técnicos chamam de cascateamento. Isso, em suma, significa o acionamento de vários reprocessos, que ocasionam segregação dos componentes do concreto e sua consequente perda de qualidade. “Além disso, o consumo de energia é elevado nesses sistemas, devido à necessidade de vários equipamentos adicionais para a sua operação”, acrescenta.

Por outro lado, conceitualmente o bombeamento a seco até então utilizado chegava a apenas 120 metros. Para elevar a altura, era possível adicionar mais compressores para elevar a pressão e, consequentemente, o alcance. Ocorre que quando se aumenta a compressão, eleva-se a necessidade de cargas elétricas para acionar os equipamentos. Além disso, seria preciso eliminar o excesso de ar quando o material chegasse ao topo (descompressão), o que tornaria o processo caro e moroso. “Outra alternativa era bombear o material a até 120 metros e em seguida rebombea-lo, com outro sistema. Mas isso certamente prejudicaria as propriedades do concreto lá na ponta”, diz Barroso.

No sistema Matrix, a adição de um acelerador de fluxo, chamado Venturi, resolveu a questão, segundo o especialista da Votorantim Cimentos. Ele explica que o Venturi faz um balanço entre a quantidade de entrada de material e o volume de ar necessário para o transporte.

Para chegar a essa tecnologia, revela ele, foi preciso mensurar a perda de descarga do sistema, algo feito através de cálculos que levaram ao ponto ótimo do balanço entre entrada de material versus volume de ar. “A equipe de engenharia realizou cálculos considerando a perda de carga do sistema. Para isso utilizamos informações como velocidade de transporte, densidade e capacidade volumétrica, de modo que, à medida que o material sobe, haja perda proporcional de carga”, explica. “Esse estudo nos levou ao modelo e o local corretos de instalação do Venturi no tubo flexível de bombeamento”, complementa.

No geral, revela o especialista, o Venturi permitiu que a Votorantim Cimentos adequasse o sistema de bombeamento a seco já utilizado pela FG-Empreendimentos, sem a necessidade de grandes aquisições de equipamentos, para concretagem produtiva acima de 200 metros. Agora, a tecnologia foi incorporada pela fabricante e fornecedora da matéria-prima e, segundo Barroso, pode ser cotada para qualquer tipo de empreendimento vertical, sem limitação inicial de altura para uma concretagem produtiva.

O Infiinity Coast, previsto para ser inaugurado em 2019, terá 69 pavimentos, abrigando 116 apartamentos residenciais. De acordo com a construtora, trata-se do terceiro edifício mais alto do país e a escolha por construí-lo na cidade de Balneário do Camboriú não foi incidental: a cidade abriga alguns dos prédios mais altos do país e por isso é conhecida como a “Dubai Brasileira”. O Infinity Coast deve ser o terceiro mais alto nacionalmente e o segundo da cidade, ficando abaixo apenas do Yacht House, da construtora Pasqualotto e com 260 metros de altura.

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