Especial: mercado de equipamentos deve cair pela metade

Obras da Ferrovia Transnordestina (2008)
Devemos voltar aos patamares de 2007, ano no qual foi tirada essa foto nas obras da Ferrovia Transnordestina, em Salgueiro (PE)

Por Rodrigo Conceição Santos – 09.10.2015 –

Setor cresceu mais de seis vezes nos últimos dez anos e agora deve voltar a patamares semelhantes aos registrados no início do seu crescimento, há 8 anos.

Nos últimos 10 anos, o setor de equipamentos móveis pesados (a linha amarela de construção) mudou. Saímos de uma venda anual de cerca de 5 mil unidades em 2005 para alcançar picos acima de 30 mil equipamentos vendidos em 2014. As obras de infraestrutura e a construção civil, consumindo mais de 80% desse volume, foram os grandes responsáveis pelo crescimento no período, segundo relatórios anuais da consultoria Insight e publicados no Estudo de Mercado da Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema). Desde 2011, o governo federal, por meio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), entrou no rol de consumidor relevante, ajudando a alcançar o pico relatado (veja mais sobre o MDA no dropbox a seguir). Agora, o cenário é mais conservador e devemos voltar aos patamares de 2007 e 2008, com vendas abaixo das 15 mil unidades/ano, como avaliam os principais agentes do setor.

As razões para a queda são várias, começando pelas compras do MDA, que não ocorrem mais. Depois porque várias obras estão paralisadas por conta das investigações da Operação Lava-Jato e diversas construtoras estão com dificuldades financeiras e de obtenção de crédito no mercado. Soma-se a tudo isso a má notícia de que a nossa capacidade de atrair investimento privado ou até mesmo de exportar equipamentos está minimizada por erros políticos na formatação de parcerias internacionais com países que compram pouco ou simplesmente não compram.

Essas são as informações que o InfraROI concatenou após consultar sete grandes fabricantes de equipamentos com atuação local e duas entidades de classe a respeito.

Carlos França, gerente de marketing da Case
Carlos França, da Case

Na Sobratema, por exemplo, não há dúvida de que o mercado vai cair, só resta confirmar quanto, como conta Eurimilson Daniel, vice-presidente da associação. “Hoje, projetamos queda de 44%. Essa previsão, em novembro do ano passado, era de apenas 5%, depois passamos para 12%, em seguida para 30%”, diz. “Se até o final do ano não houver uma reação – algo que também é atípico, pois geralmente o segundo semestre responde melhor e neste ano tudo tem acontecido ao contrário – podemos ter uma nova revisão para baixo desse número”, completa, salientando que esse número final será apresentado em novembro pelo Estudo Sobratema do Mercado de Equipamentos.

Na avaliação da Case Construction, segundo Carlos França, gerente de marketing, as vendas totais do mercado cairão 50% em relação ao ano passado. “Mas se excluíssemos as compras do MDA, a queda seria de 36%”, diz. A Case leva em conta dados da Association of Equipment Manufactoring (AEM), cuja contabilidade é um pouco diferente da realizada pela Sobratema. “Pela AEM, o mercado brasileiro deve consumir cerca de 12 mil unidades em 2015”, pontua França.

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A visão de que o mercado vai cair representativamente é unanime entre os entrevistados. Mas nem todos têm a mesma estratégia de reação e cada um tem a sua forma de procurar “lugar ao Sol”.

A Volvo Construction, segundo o seu presidente Afrânio Chueire, por exemplo, se mantém focada na manutenção de market share. “As vendas de todos modelos de equipamentos estão sendo impactadas pela baixa na economia, mas a demanda de algumas linhas, como motoniveladoras e rolos compactadores, que dependem essencialmente dos investimentos públicos, são mais afetadas”, diz ele, mostrando que é preciso atenção redobrada para garantir fatias nesses mercados.

Para Chueire, os grandes projetos de infraestrutura continuarão sendo os principais consumidores de equipamentos pesados e, com a queda da demanda global por commodities (principalmente minério de ferro), a infraestrutura ganha ainda mais relevância, pois passa a ser o principal consumidor de modelos de maior porte também.

A John Deere também credita ao setor de infraestrutura o desempenho do setor de equipamentos e a prova disso, segundo Roberto Marques, líder das divisões de Construção e Florestal da empresa, é que a empresa mantém os seus investimentos de médio e longo prazo no país. “O mercado como um todo passa por incertezas políticas e econômicas e é natural que os clientes estejam mais conservadores. No entanto, há expectativa de retomada nos investimentos de infraestrutura no Brasil, até porque não há outro caminho”, diz ele.

Marques lembra que alguns anúncios de investimentos já foram feitos, como é o caso de novo pacote de infraestrutura de R$ 198 bilhões lançado em junho pelo governo federal. “Por tudo isso, a John Deere tem observado que alguns clientes aproveitam esse momento para se reestruturar, renovar suas frotas e garantir melhor posicionamento quando ocorrer uma retomada efetiva de mercado”, diz. “Isso é visão de longo prazo e é dessa forma que nos planejamos”, completa.

A Sany também responde de modo otimista e as vendas de um determinado tipo de equipamento – as escavadeiras – é o responsável por isso. A fabricante chinesa vislumbra alcançar de 7% a 9% de market share do setor de escavadeiras neste ano. Talvez até por esse sucesso, a empresa, que avançou e retraiu diversas vezes na intenção de construir uma nova fábrica no Brasil, na cidade de Jacareí (SP), voltou com essa carga lançando a pedra fundamental das obras há algumas semanas. “Por isso, mesmo com o mercado retraído, apostamos num crescimento de 20% nas nossas vendas de escavadeiras em 2015”, diz Elton Wu, diretor da fabricante no Brasil.

Escavadeira de rodas New Holland (foto: New Holland).
Escavadeira de rodas New Holland (foto: New Holland).

Se apostar no mercado é sinônimo de otimismo, a New Holland pode ser classificada como uma das mais otimistas do setor, pois lançou diversos equipamentos novos neste ano. O último deles foi uma escavadeira sobre rodas. “Acreditamos que as medidas econômicas e fiscais para a estabilização do mercado estão sendo tomadas. Além disso, a nossa estratégia não se atrela ao momento econômico atual, mas se projeta para uma expectativa de mercado de médio e longo prazo. Afinal, temos consciência de que o Brasil necessita de investimentos em infraestrutura”, diz Rafael Ricciardi, especialista de marketing da fabricante do grupo CNH.

Principais consumidores
Mesmo dentro dos setores de infraestrutura e construção civil, o entendimento dos diferentes tipos de frotistas pode representar maior sucesso nas vendas de cada fabricante. A BMC-Hyundai, que espera para este último trimestre o mesmo comportamento do restante do ano – ou seja, ruim –, avalia que houve mudança no perfil de consumo de equipamentos nos últimos meses. “A representatividade dos locadores nas compras aumentou, pois o governo deixou de fazer grandes investimentos, faltam recursos para as obras, muitas obras estão paralisadas pela Lava-Jato e houve ainda a falência de grandes construtoras e outras passam por dificuldades de aprovação de crédito junto aos agentes financeiros”, diz Eliane Pessoa, da inteligência de mercado da empresa.

Afrânio Chueire, da Volvo, contabiliza que, em média, as rentals realizam cerca de 30% das compras de equipamentos. Mas em alguns modelos, segundo ele, elas já apresentam representatividade maior. Enxergando essa movimentação de mercado de forma ainda incerta, ele lembra que em países europeus nos Estados Unidos e Japão a participação dos locadores tende crescer nos períodos de recessão econômica. “Aqui essa tendência não é tão clara, devido a algumas particularidades do mercado local. Mas há, de fato, uma expectativa de que esse segmento mantenha uma demanda um pouco mais aquecida do que os outros mercados de usuários finais”, diz.

Eurimilson Daniel, da Sobratema
Eurimilson Daniel, da Sobratema

Eurimilson Daniel, da Sobratema, é também diretor da Escad Rental e pondera essa tendência apresentada pela BMC-Hyundai e Volvo. Segundo ele, esse mercado tem trabalhado em condições bastante desfavoráveis e por isso está paralisado.

O especialista explica que a expectativa dos locadores é trabalhar com cerca de 75% da frota ocupada. Esse seria um número ideal para garantir rentabilidade e também para ter margem para ter margem de realizar as manutenções necessárias e ter disponibilidade de equipamentos para atender contratos de emergência. “Não temos conseguido alcançar esse índice. O mercado, de modo geral, está trabalhando com menos de 50% da frota locada, o que representa uma queda de 40% sobre o que praticávamos no ano passado”, diz.

Segundo ele, o fato de o mercado ter caído é ruim, mas não é o “fim da desgraça”. “Os preços também caíram até 20% e, além disso, tivemos aumento no custo operacional de 15%, considerando o aumento do óleo diesel, custo de mão de obra e outros”, diz. Isso, de acordo com Daniel, tem feito com que as locadoras eliminem qualquer possibilidade de investimento e ainda tenham de aplicar demissões e readequações gerais de custos.

Salvação da lavoura
Portanto, não é nas rentals, como ponderou Daniel, que está a salvação da lavoura para o setor de equipamentos pesados. Em contrapartida, alguns fabricantes têm encontrado, na própria lavoura, não a salvação, mas algum alento. “A agropecuária, apesar de também estar sofrendo algum impacto da crise, continua consumindo”, diz Carlos França, da Case. Segundo ele, a fabricante sempre teve uma atuação com foco nesse mercado e tem conseguido resultados crescentes, que hoje levaram à representatividade de 10% das vendas da fabricante.

O mesmo enxerga a New Holland, pois, como explica Rafael Ricciardi, os agricultores e pecuaristas começaram a perceber que é mais fácil padronizar o tamanho dos talhões, largura dos carreadores e adotar diferentes modelos de curva-de-nível usando máquinas da linha amarela como motoniveladoras, escavadeiras, retroescavadeiras e tratores de esteiras. “Há cinco anos, os negócios para esse mercado respondiam por 3% do nosso total. Hoje, representam 7,4% e a expectativa é que em 2016 passem a representar 10%”, diz Riccciardi.

A Volvo, a Sany e a BMC-Hyundai também apostam na pulverização de mercados como estratégia e vêm nos setores agropecuário e florestal uma boa saída. A BMC-Hyundai, aliás, incursou até mesmo nos leilões tradicionais de gados para anunciar suas máquinas (veja mais em http://infraroi.com.br/bmc-hyundai-toma-cena-canal-boi/), confirmando que a criatividade ainda é a melhor forma de vender equipamentos.

 

Dropbox – O que foram as compras do MDA
Por meio dos Programas de Aceleração do Crescimento (PAC), os municípios com menos de 50 mil habitantes receberam motoniveladoras, retroescavadeiras e caminhões basculantes entre 2011 e 2014. Localidades em situação declarada de emergência também receberam uma pá carregadeira e um caminhão pipa cada. Foram mais de 18 mil equipamentos distribuídos em cerca de cinco mil cidades. A demanda do Ministério foi tão grande nos últimos anos que o posicionou como o maior comprador isolado de equipamentos em todo o mundo.

Na linha amarela, o maior beneficiado foi a motoniveladora, com entrega de 5.060 unidades. Como categoria isolada, o índice representou um recorde histórico. De acordo com o Estudo Sobratema do Mercado Brasileiro de Equipamentos para Construção, em 2013 as compras do MDA ajudaram o nicho de motoniveladoras a crescer 177% em relação ao ano anterior. Em números redondos, foram comercializadas 4.050 unidades, contra 1.460 em 2012.

 

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