Hidrelétricas entram no rol de financiamentos verdes

Redação (com Além da Energia) – 01.06.2021 – Executiva do Climate Bonds Initiative (CBI) explica os principais critérios para a elegibilidade das hidrelétricas e mostra como o mercado verde já angariou mais de US$ 1 trilhão no mundo

financiamento verde hidrelétricas (CBI)Climate Bonds Initiative (CBI) é uma organização internacional sem fins lucrativos, com sede em Londres e foco na mobilização de mercados de capitais globais para soluções de baixo carbono. Em outras palavras, ela certifica títulos verdes e considera isto uma maneira de direcionar investimentos em diversos setores para apoiar o Acordo de Paris.

Recentemente, a CBI tornou as usinas hidrelétricas elegíveis à captação de financiamentos verdes e a novidade tende a movimentar o mercado nos próximos anos, como conta Thatyanne Gasparotto, Diretora Adjunta para Regiões da CBI, em entrevista ao portal Além da Energia. Ela supervisiona os programas regionais para América Latina, países membros da ASEAN e China, além de promover o fomento do mercado de finanças sustentáveis globalmente. “A CBI surgiu em 2009 para atender uma necessidade global de financiar a economia de baixo carbono. O nosso intuito é contribuir fortemente para reduzir o aquecimento global entre 1,5 e 2 graus Celsius e atuamos sob a estratégia de estabelecer critérios e métricas para financiamento verde em todos os setores da economia”, diz.

A executiva detalha como os setores produtivos estão avançando na captação de investimentos verdes mundialmente, alcançando a soma de mais de US$ 1 trilhão em investimentos. No Brasil, os aportes também avançam, e devem ganhar ainda mais força com a recém-validada elegibilidade das hidrelétricas.

Quais são os setores econômicos abrangidos pela CBI e como eles têm evoluído?

Mundialmente, são Energia, Edificações, Transportes, Água, Resíduos, Uso da Terra, Indústria, TI e alguns outros setores nos quais ainda não tivemos alocação de recursos. O mercado começou com alguns poucos títulos verdes atrelados à energia renovável, mais especificamente energias solar e eólica, e expandiu para outros segmentos, além de uma diversificação em energia, incluindo critérios para energia marítima, geotérmica e, mais recentemente, hidrelétricas.

Como os recursos estão divididos?

Há diferença entre a proporção de títulos verdes por mercados no Brasil e no mundo. Aqui, tivemos US$ 8,6 bilhões emitidos em títulos verdes de 2015 a março de 2021. Desse total, 42% foram direcionados ao setor de energia elétrica (basicamente solar e eólica). Pela força da nossa agropecuária, este foi o segundo mercado que mais recebeu recursos (34%). Depois temos os setores de transportes (9%), indústria (6%) e edificações (4%), além dos demais já citados em porcentagens menores de representatividade.

Essas proporções são semelhantes mundialmente?

Não. No mundo, o setor de Energia é prevalente também, tendo recebido 35% do mais de US$ 1 trilhão já emitidos em títulos verdes entre 2013 e 2020. Porém, ele é seguido mais de perto pelo mercado de Edificações (27%). Os aportes em títulos verdes de Transportes representam 19% do total e os setores relacionados ao uso da Água, outros 10%. Em seguida vem o Uso da Terra, com 3%, e os demais nichos citados têm baixa representatividade.

Com a elegibilidade das hidrelétricas, o financiamento verde deve ampliar a vantagem do setor de energia?

Acreditamos que sim, principalmente no Brasil, dada a representatividade dessa matriz. Mas os critérios para financiamento verde de hidrelétricas foram publicados recentemente, em março de 2021, e ainda serão testados pelo mercado, principalmente porque o processo tem várias especificidades.

Quais são as especificidades para a captação de títulos verdes para hidrelétricas?

Há duas rotas: uma é para as hidrelétricas que ficaram operacionais antes de 2020 e a outra para as que foram acionadas depois. Em ambos os casos, alguns critérios precisam se combinar e o que muda é o nível de exigência.

Para o primeiro grupo (operacional antes de 2020) as usinas geradoras, por exemplo, precisam ter pegada de carbono abaixo de 100 gramas de CO2 equivalente por kilowatt hora ou densidade elétrica superior a 5 Watt por metro quadrado.

Já no segundo grupo, elas precisam cumprir o dobro desses índices, ou seja: pegada de carbono abaixo de 50 gramas de CO2 equivalente por kilowatt hora ou densidade elétrica superior a 10 Watts por metro quadrado.

É muito importante também que os projetos, de todos os setores, tenham planos de adaptação e resiliência. Isso é bem latente nas hidrelétricas e por isso foi preciso dar um tratamento diferenciado a elas em relação às energias eólica e solar.

 

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