De acordo com levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), o número de empregados formalmente no setor da Construção Civil ultrapassou a marca histórica de 3 milhões pela primeira vez desde 2014. Entre janeiro e maio de 2025, o setor criou 149,2 mil novas vagas formais — número inferior ao registrado em 2024, mas superior ao de 2023. Os três segmentos da atividade — construção de edifícios, infraestrutura e serviços especializados — registraram saldo positivo no período.
Os dados mostram que 47,7% das vagas criadas foram ocupadas por jovens entre 18 e 29 anos, e 62,2% dos admitidos têm ensino médio completo. O salário médio de admissão, de R$ 2.436, é o maior entre todos os setores pesquisados, incluindo serviços, indústria e até administração pública.

Acesso ao crédito é a grande dificuldade
Um dos pontos mais críticos do período foi a forte retração no crédito voltado à produção no setor. Nos primeiros cinco meses de 2025, foram financiadas apenas 24.115 imóveis com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), uma redução de 62,9% em relação ao mesmo período de 2024. Em valores, a queda chegou a 54,1%, passando de R$ 15,5 bilhões para R$ 7,1 bilhões.
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A economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, atribui esse cenário a um descompasso entre a alta da taxa Selic — mantida em 15%, o maior nível em duas décadas — e a queda sistemática na captação líquida da caderneta de poupança, que perdeu R$ 38,4 bilhões só no primeiro semestre. “O custo do crédito está elevado tanto para o comprador quanto para o construtor. Os bancos têm priorizado o financiamento à aquisição, em detrimento da produção”, diz.
Confiança do setor ainda está baixa
O nível de atividade da construção civil, medido pela Sondagem da Indústria da Construção da Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com a CBIC, atingiu 48,8 pontos em junho de 2025 — o melhor desempenho desde novembro de 2024. Embora o índice ainda esteja abaixo da linha dos 50 pontos, que separa expansão de retração, o resultado representa uma sinalização positiva: mostra que o setor segue em desaceleração, mas com menor intensidade do que nos meses anteriores.
A sondagem capta a percepção de empresários do setor, que respondem sobre o ritmo de suas atividades, utilização da capacidade instalada, contratações e expectativas. Essas respostas funcionam como um termômetro da realidade vivida nos canteiros de obras, refletindo as decisões práticas de quem está na linha de frente da produção. A expectativa da CBIC é de que haja uma recuperação gradual, impulsionada por lançamentos anteriores e pela manutenção da atividade em segmentos como os serviços especializados e a construção de edifícios.
No entanto, o Índice de Confiança do Empresário da Construção (que integra a Sondagem) recuou para 47,1 pontos em julho, menor valor do ano. A percepção negativa está relacionada à alta dos juros, à Inflação acumulada em 12 meses (5,35%) e às incertezas macroeconômicas, como a política fiscal e a nova tarifação de produtos brasileiros nos Estados Unidos. O Índice mede o grau de otimismo ou pessimismo dos empresários do setor da construção civil em relação ao ambiente atual e às perspectivas para os próximos meses.
Quais as perspectivas para o setor da construção após bater os 3 milhões de empregados
A utilização da capacidade operacional manteve-se elevada, com média de 67% no semestre, e as vendas de cimento cresceram 3,5% em relação ao ano anterior, impulsionadas por pequenas reformas e obras residenciais. Com isso, a CBIC manteve sua projeção de crescimento para 2025 em 2,3%, pela segunda vez consecutiva. Segundo Ieda, a estimativa carrega “um leve otimismo”, sustentado pela inércia de lançamentos anteriores, que ainda geram atividade e emprego no presente.
Entretanto, as expectativas para novos empreendimentos e serviços caíram para o segundo menor patamar do ano. “Estamos vivenciando o reflexo do que foi lançado nos últimos dois anos. Se o atual ambiente de juros elevados persistir, há risco de desaceleração mais acentuada a partir de 2026”, alertou a economista.


