China tem mais de 500 GW de geração renovável em construção

China constrói mais energia renovável do que o resto do mundo junto, mas gargalos de transmissão e consumo podem prolongar uso do carvão

Por Redação

em 23 de Julho de 2026

A China tem hoje mais de 500 GW de usinas eólicas e solares em construção — mais do que o restante do mundo somado — mas a expansão recorde das energias renováveis pode não ser suficiente para reduzir a dependência do carvão, como afirma o relatório do Monitor Global de Energia (Global Energy Monitor, GEM) divulgado nesta terça-feira (21/7).

Segundo o estudo, o país reúne 1.362 GW de projetos eólicos e solares em diferentes estágios de desenvolvimento (664 GW de solar e 698 GW de eólica). Mantido o ritmo atual, a China poderá atingir ainda neste ano a meta de seu Plano Quinquenal de fazer com que eólica e solar representem mais da metade da capacidade instalada prevista para 2030.

O desafio da transmissão

Acontece que boa parte dessa expansão está concentrada nas regiões desérticas do norte e noroeste do País, onde o governo chinês desenvolve seu programa de “megabases” de energia renovável. Essa distância dos grandes centros mostra que há um gargalo na infraestrutura de transmissão, que não acompanha o crescimento da geração e aumenta o risco de curtailment, também observado no Brasil.

Isso já acontece em território chinês. Em províncias como Xinjiang, Qinghai e Gansu, entre 10% e 17% da geração solar disponível deixa de ser utilizada por limitações da rede elétrica. No caso da energia eólica, as perdas variam de 4% a 9%.

Além disso, a própria expansão das linhas de transmissão continua fortemente associada ao carvão. Embora as megabases de renováveis exijam 27 novas linhas de ultra-alta tensão, o próximo Plano Quinquenal prevê apenas dez. Hoje, apenas cerca de 20% da eletricidade transportada por essas linhas vem de fontes eólica e solar, enquanto o carvão responde por 42%.

Qual a estratégia da China para não perder energia?

Para contornar esses gargalos, a China passou a incentivar que parte da nova geração renovável seja consumida localmente, realocando polos industriais e criando novos. O país também está aumentando o investimento em sistemas de armazenamento, como baterias, e direcionando o excedente para projetos de hidrogênio verde. Os chineses já canalizam mais de 10 GW de capacidade renovável à produção de hidrogênio — quase oito vezes o restante do mundo. E reguladores industriais têm incentivado cada vez mais a integração de fontes renováveis como condição para aprovar novos projetos de indústrias pesadas de alta emissão.

Dependência do carvão ainda se mantém

No entanto, a pesquisa do GEM conclui que essa estratégia cria uma perigosa brecha para o chamado “lock-in do carvão” — isto é, a perpetuação da dependência do combustível fóssil. Um exemplo é a Baofeng Energy, maior produtora mundial de olefinas a partir de carvão.

Em 2025, a empresa colocou em operação, na Mongólia Interior, um projeto que combina um parque eólico e solar de 1.000 MW com a produção de hidrogênio verde para abastecer sua planta industrial. Embora a iniciativa reduza o consumo de carvão em cerca de 210 mil toneladas por ano, isso corresponde a apenas 2,2% do consumo anual total de carvão da instalação.

Segundo o relatório, o caso ilustra o risco de que a incorporação de energias renováveis se transforme apenas em um custo de conformidade regulatória, enquanto a dependência estrutural do carvão permanece praticamente inalterada.

Para Aiqun Yu, analista de pesquisa e estrategista sênior para o Leste Asiático do Global Energy Monitor, apesar do apresentar uma boa evolução, ainda há muito espaço para que a China fortaleça sua liderança climática. “No fim, o sucesso dessas megabases não será medido pelos gigawatts instalados, mas pelo volume de carvão que conseguirem efetivamente substituir”, conclui o especialista.

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