O pedido de recuperação extrajudicial apresentado pelo grupo Andrade Gutierrez para reestruturar uma dívida de R$ 3,4 bilhões expõe um problema que vai além de uma crise isolada na construção pesada: a vulnerabilidade de empresas que dependem de operações intensivas em capital em um ambiente de juros elevados, crédito seletivo e forte pressão sobre caixa. A afirmação é de Marcos Pelozato, advogado, contador e especialista em reestruturação empresarial, que aponta os riscos do crescimento altamente estruturado em ciclos dependentes de previsibilidade financeira e pouca margem para absorver choques externos.
A companhia protocolou o pedido na 1ª Vara Empresarial de Belo Horizonte após informar que 47% de suas obras foram paralisadas ou adiadas, afetando diretamente o fluxo financeiro da operação. O grupo também atribui a deterioração à alta do dólar, ao encarecimento do crédito e a entraves em projetos internacionais, como os executados em Gana e na República Dominicana. Segundo a empresa, os planos já contam com adesão superior a 70% dos credores, percentual mínimo necessário para homologação judicial.
Pelozato diz que o mercado costuma olhar para crises como essa pelo ângulo errado. “Muita gente enxerga apenas o tamanho da dívida, mas o problema normalmente começa antes. O que derruba empresas não é necessariamente o passivo acumulado, e sim a incapacidade de manter o fluxo de caixa funcionando quando a operação sofre interrupções relevantes”, afirma.
Segundo ele, negócios intensivos em capital vivem uma equação delicada. “São estruturas caras, com compromissos permanentes altos, dependência contratual forte e pouca flexibilidade para ajustes rápidos. Quando a receita desacelera de forma brusca, a pressão financeira aparece em questão de meses.”
Quando a crise operacional vira crise financeira
O caso da Andrade Gutierrez evidencia um padrão recorrente no ambiente corporativo: a crise jurídica costuma ser a etapa final de um desgaste que começou muito antes, geralmente dentro da própria operação. Empresas de infraestrutura operam com ciclos longos, recebimentos condicionados à execução de contratos, necessidade constante de capital e cadeias complexas de fornecedores. Quando as obras param, o impacto não se restringe à receita futura. Ele compromete imediatamente a liquidez.
Para Pelozato, esse é um erro clássico de gestão porque muitas empresas estruturam crescimento sem levar em conta imprevistos em seus projetos. Dessa forma, quando surgem atrasos, mudanças macroeconômicas ou pressão cambial, não contam com uma margem suficiente para absorver a turbulência.
No caso da Andrade Gutierrez, um risco ainda maior é a exposição da construtora a projetos fora do Brasil e passivos vinculados ao mercado externo, combinação que adiciona volatilidade cambial e negociações potencialmente mais duras com credores internacionais. “Quando dólar, juros e operação pressionam ao mesmo tempo, o desgaste financeiro acelera muito. Mesmo empresas robustas sofrem quando múltiplos riscos se materializam simultaneamente”, afirma.
Caso da Andrade Gutierrez mostra que recuperação extrajudicial deixa de ser último recurso
Na avaliação do especialista, a escolha pela recuperação extrajudicial também merece atenção. Diferentemente da recuperação judicial tradicional, esse modelo pressupõe negociação prévia com credores e costuma ser adotado quando ainda existe capacidade de coordenação financeira, o que muda a leitura do caso, segundo Pelozato. “O empresário brasileiro ainda associa qualquer reestruturação à ideia de fracasso, mas essa visão está ultrapassada. Em muitos casos, buscar reorganização antes do colapso é justamente a decisão mais racional para preservar valor, empregos e continuidade operacional.”
O movimento também sinaliza amadurecimento no uso de instrumentos jurídicos de reorganização empresarial, especialmente em um ambiente de crédito mais restritivo.


