A América Latina reúne, em extensão e qualidade, reservas de minerais críticos superiores às de qualquer outra região do mundo e ainda opera com 70% de sua geração de energia proveniente de fontes renováveis. A avaliação é de Leonardo Lima, diretor global de Mineração da Arcadis, consultoria global de engenharia e sustentabilidade com atuação em mais de 30 países. Lima participou recentemente de um evento promovido pelo governo do Chile em que o novo ministro da Economia e Mineração declarou publicamente o compromisso do país com a liderança da chamada mineração verde, termo que, segundo o executivo, deixou de ser diferencial para se tornar requisito.
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Lítio, cobre, níquel, cobalto e terras raras estão no centro de duas das maiores disputas geopolíticas e econômicas do momento: a corrida pela inteligência artificial e a transição energética. A relação entre os dois temas é direta. Data centers que sustentam modelos de IA consomem volumes crescentes de energia e dependem de minerais específicos para funcionar. O uso diário de ferramentas como o ChatGPT já impõe demanda relevante sobre cobre, terras raras e níquel. Sem esses minerais, não há baterias, infraestrutura digital e descarbonização.
Por que a América Latina se destaca no cenário global de mineração?
A Agência Internacional de Energia (AIE) projeta que a demanda global por minerais críticos precisará crescer entre quatro e seis vezes até 2040 para que o mundo atinja metas de emissões líquidas zero. Nesse cenário, a América Latina ocupa posição estrutural. O Brasil opera com 90% de sua matriz energética em fontes renováveis, taxa sem equivalente em economias de escala comparável, enquanto o conjunto da região concentra jazidas de alta qualidade de praticamente todos os minerais que a nova economia exige. Chile e Peru lideram a produção de cobre e lítio; o Brasil detém reservas expressivas de nióbio, ferro e terras raras.
Apesar do potencial, a região ainda enfrenta gargalos que limitam a atração de capital de longo prazo: instabilidade regulatória em alguns países, infraestrutura logística deficiente em áreas remotas e marcos legislativos que, em certos contextos, não oferecem a previsibilidade que investidores de projetos de 20 ou 30 anos demandam. O movimento recente de governos, como o do Chile, de sinalizar legislações mais claras e favoráveis à mineração responsável representa, segundo Lima, um passo concreto na direção certa.
O que falta para a região deslanchar
Segundo Lima, a região precisa avançar a legislação, pois, para ele, a falta de clareza e estabilidade afeta a confiança de investidores de longo prazo. Por outro lado, ele não entende que as questões de sustentabilidade possam atrasar objetivos de produtividade. “Estudos ambientais mais detalhados, por sua vez, aceleram a obtenção de licenças, encurtando o tempo entre o início do projeto e a operação.”
O executivo acrescenta que a maturidade do setor na região mudou de patamar. “A velocidade é necessária, mas não é uma autorização para fazer mineração de qualquer jeito. As grandes empresas globais já entenderam isso há algum tempo. O que observamos agora é que os governos também estão entendendo e apoiando ativamente essa agenda. Foi muito claro ouvir o ministro do Chile dizer que este é o caminho.”

